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Round 6 - O Pior (e o Melhor) de Nós



A famosa série Round 6 (Squid Game) da Netflix é a mais nova obra do gênero battle royale (Senhor das Moscas, Battle Royale, Jogos Vorazes, etc). Confesso que, apesar de ficar fisgado para assistir tudo até o fim, essa não foi uma série fácil de digerir. Nesse artigo, vou fazer algumas reflexões sobre gamificação, economia comportamental e talentos. Atenção, texto cheio de spoilers. Leia por sua própria conta e risco. Quer apostar?


Para refrescar a memória, um resumo em 3 min da série:


Prontos? Vamos lá!



A Mão Invisível do Mercado



Uma inovação de Round 6 é a não obrigação de entrar no mundo dos jogos. Para a mecânica funcionar, os participantes passam por um criterioso processo de recrutamento e seleção. Os candidatos ideias são pessoas com sérias dificuldades financeiras e que praticamente não tem chances no mundo real de darem a volta por cima. Para elas, o prêmio dos jogos é a oportunidade de uma vida.


Isso é um elemento essencial da história, pois ela remove a questão de matar ou morrer por falta de opção, e isso acentua a complexidade e crueldade da série.


A cena de Gi-hun na delegacia é tragicômica:


"Alguém ofereceu dezenas de bilhões de wones para você jogar, e o senhor aceitou. Jogaram Batatinha 1,2,3. Os que perderam foram eliminados. Quando vocês disseram que queriam ir embora, eles deixaram." -Policial resume a narrativa de Gi-hun (456)

No segundo episódio (Inferno), quando a maioria vota por sair do jogo, a dureza da realidade os faz entender que a vida lá fora é mais cruel e injusta do que os jogos. A mão invisível resolve tudo. Os organizadores do jogo só precisam dar um empurrãozinho, oferecendo um cartão com instruções de como voltar. E 187 de 201 jogadores retornam (índice de 93%).



Jogo de Soma Zero?



"Se pararmos agora, só os mortos ganham com isso. Nós somos os vencedores. Não é justo." - Jogador 32

A gamificação dos cenários e da própria estrutura colorida e de temática infantil dá uma aparente leveza estética, só que acentua a brutalidade dos jogos. Playground e fuzis não combinam. É como se assistíssemos Chaves versão Tarantino.


Cada vida vale 100 milhões de wones coreanos. Caso todos desistam dos jogos, as famílias dos jogadores eliminados até o momento recebem esse valor, mas zero vai para os desistentes. Se continuarem o jogo, os finalistas dividem o prêmio acumulado (100 mihões x 456 jogadores).


Ilustro os 3 cenários de conclusão dos jogos:

  1. Cenário A: Jogadores vencem as 6 etapas

    1. Prêmio_de_cada_vencedor = 100 M + (100M * #_de_eliminados /#_de_vencedores)

    2. Prêmio_de_cada_eliminado = zero

  2. Cenário B: Jogadores desistem (50% + 1 dos votos)

    1. Prêmio_de_cada_desistente = zero

    2. Prêmio_de_cada_eliminado = 100M

  3. Cenário C: Eliminação total

    1. Prêmio_de_cada_eliminado = 100M


É possível chegar no final sem terminar sozinho? Teoricamente sim, dado que o jogo da lula aceita mais de um participante por lado (ataque ou defesa).




Tomada de Decisão sob Incerteza



A sequência dos jogos foi desenhada para confundir e abalar os jogadores. No final de cada etapa, os jogadores tentam inferir a natureza do próximo jogo, sendo constantemente surpreendidos. O objetivo da organização é minar as relações, criando uma montanha-russa de emoções contraditórias entre os jogadores, estimulando-os a hora confiar e hora trair uns aos outros.


  1. Batatinha Frita 1,2,3: todos têm chance de ganhar. Jogo de não soma zero. É você contra o sensor. Vence pelo conhecimento e técnica. Azar é tropeçar em alguém. Confie e ajude o outro, como Ali (199) fez com Gi-hun (456).

  2. Colmeia: todos têm chance de ganhar, mas dificuldades diferentes. Jogo de não soma zero. Vença pelo conhecimento e técnica. Sorte facilita, mas não é impeditiva. Compartilhar informação pode ajudar todos, né Sang-Woo (218)?

  3. Cabo de Guerra: time contra time. Jogo de soma zero. Metade ganha, a outra é eliminada. Trabalho em equipe vence a força individual. Vença pelo conhecimento e técnica. Confie em seus companheiros e na experiência de quem conhece o jogo, como Il-Nam Oh (Jogador 001).

  4. Bolinhas de gude: um contra um. Jogo de soma zero. Metade ganha, a outra é eliminada. Vença pela técnica (de jogar ou trapacear) ou pela sorte, dependendo do tipo de jogo escolhido. Escolheu um parceiro(a) forte? Está na hora de trai-lo(a). Confie apenas em si mesmo.

  5. Plataformas de vidro: Jogo de não soma zero. Jogo de sorte (a não ser que você seja especialista em vidros, aí conhecimento dá uma chance de vencer) e técnica (desviar ou jogar o competidor numa plataforma nova). Os primeiros são as cobaias. Os últimos têm mais chance de sobreviver, mas menos tempo. Confie em si mesmo e sacrifique os outros.

  6. Jogo da Lula: Ataque ou defenda. Vença pelo conhecimento, técnica e estado físico. Jogo de soma zero. Mate ou será morto.



Economia Comportamental x Clássica


Para aliviar o peso da culpa, os organizadores dos jogos fazem com que a eliminação seja realizada pelos juízes, não pelos próprios jogadores. Nesse sentido, seria possível ganhar sem sujar as mãos (diretamente), talvez exceto no jogo da lula, onde vale tudo. Racionalmente, quem está no jogo sabe o que está em risco (exceto o primeiro a ser eliminado no Batatinha Frita 1,2,3.). O incentivo é duplo. Ganhar para levar o prêmio e para não ser eliminado. Obs: Lembra até algumas carreiras em investment banking (up or out).




Sang-Woo (218) é a personificação do tomador de decisão racional concebido pela economia clássica. Nessa história, ele busca maximizar sua utilidade em cada momento. Todas as suas escolhas têm uma explicação racional, com foco em vencer os jogos. Talentos de Sang-Woo (Jogador 218): Estratégico, Analítico, Autoafirmação, Excelência e Estudioso.




Gi-hun (456) é o oposto, personificando a pessoa comum com vieses e emoções estudados pela economia comportamental. Ele é considerado simplório e inocente por Sang-Woo. Gi-hun quer ganhar, mas volta e meia toma decisões que vão contra suas chances de vencer. Talentos de Gi-hun (Jogador 456): Ativação, Positivo, Desenvolvimento, Relacionamento e Responsabilidade.


É muito interessante observar como esses 2 amigos de infância convergem e divergem durante a série. No clímax, Gi-hun prefere abdicar de todo o prêmio para que seu muy amigo sobreviva. Sang-Woo, comovido, tira a própria vida e escolhe dar o prêmio para o amigo. Uma certa justiça poética dos autores.



O Compliance é de Matar



A organização de Round 6 é disciplinada, hierárquica e burocrática. Jogadores assinam documentos, são monitorados constantemente e as regras são supervisionadas e seguidas 24x7.


Mais do que a punição extrema dos traficantes de órgãos e do Jogador 111 (médico), o que me impressionou foi o argumento usado pelo Front Man ao puni-los por insider information e o Jogador por front running.


"Você estragou o elemento mais importante deste local: A IGUALDADE. Todo são iguais dentro do jogo. Aqui, criamos um mundo justo para todos os jogadores. Essas pessoas sofriam com desigualdade e discriminação lá no mundo real. E nós oferecemos uma última chance para eles lutarem de forma justa e vencerem. Mas você feriu esse princípio." - Front Man

Agora, quando o próprio Front Man é confrontado numa situação de conflito de interesses, ele tenta contornar a situação para resolvê-la sozinho, mas no fim ele é firme e segue a política da empresa, mesmo às custas do irmão. (Ou será que o irmão sobreviveu? Descobriremos na temporada 2...)




Meritocracia x Sorte: Os jogos são justos?



Aqui vale uma reflexão sobre a "justiça" do jogo. Afinal, como o Front Man disse, todos têm a mesma chance teórica de ganhar os jogos. Isto é, inteligência, força, nível de estudo, gênero, idade, origem ou qualquer outro atributo pessoal não deveriam proporcionar uma vantagem para ser vitorioso. Será?


Rodadas 1 e 2 considero justas. Mesmo que alguém não conheça os jogos, pode observar outros antes de jogar.


Rodada 3 depende dos membros da equipe, da experiência deles com cabo de guerra e do trabalho em equipe.


Rodadas 4 e 5 seriam justas, dependendo mais da sorte. Mas aceitam trapaça...


Já na Rodada 6 (Jogo da Lula), por ser um jogo de contato e agilidade, o fator físico faz a diferença. Especialmente se pode virar briga de rua com facas (providas pelos organizadores). Ter experiência no jogo também é um fator de vantagem. Imagina o Ali (199) aprender as regras na hora...


"Aquele dinheiro foi o prêmio que você ganhou por sorte e esforço. Você tem todo o direito de usá-lo como quiser..." -Il-Nam Oh (001)

Gi-hun (456) não se sente vencedor, nem merecedor do prêmio, tanto que passa um ano sem mexer no dinheiro. Para você, a vitória dele foi merecida? Ou ele perdeu também, mas recebeu um prêmio de consolação milionário?




Os Especuladores são os Vilões da História?



Uma última reflexão vai para um certo ponto de vista de luta de classes que a série apresenta. Os VIPS (episódio 7) entram em cena, apostando nos jogadores como se fossem os cavalos de corrida. Eles desprezam os outros seres humanos, tratando-os como objetos. Eles se divertem, como o público deveria se divertir ao assistir as batalhas no Coliseu no Império Romano. Cabe aqui pensarmos se nós, no conforto de nossas casas, assistindo streaming, também não somos como os VIPs... O próprio criador dos jogos Il-Nam Oh (Jogador 001), um banqueiro, diz que o fez porque queria se divertir.


"Você sabe o que uma pessoa com muito dinheiro e uma pessoa que não tem dinheiro nenhum tem em comum? Pras duas, viver não tem nenhuma graça." -Il-Nam Oh (001)

Olha aí novamente a mão invisível. Os ricos decidiram dividir sua riqueza (de uma forma questionável), mas estão distribuindo via jogo. Como diria Adam Smith:


“Os ricos consomem pouco mais do que os pobres e, apesar de seu egoísmo e de sua rapacidade naturais, embora desejem apenas sua própria conveniência, embora o único fim ao qual destinem as labutas de todos os milhares que empregam seja a gratificação de seus próprios desejos vãos e insaciáveis, eles dividem com os pobres o fruto de todos os seus melhoramentos. São levados por uma mão invisível a fazer quase a mesma distribuição do que é necessário à vida que teria sido feita se a terra tivesse sido dividida em porções iguais entre todos os seus habitantes, e assim, sem o pretender, sem o saber, promovem o interesse da sociedade.”

Muito curiosa a última conversa entre Il-Nam e Gi-hun. Ambos estão nos extremos opostos da sociedade, e o ponto que Il-Nam mais quer discutir é sobre confiança na humanidade, apostando inclusive nisso. Il-Nam não confia nas pessoas, esperando o pior delas, enquanto Gi-hun tem esperança nos seres humanos.


O que a narrativa de Round 6 traz de muito astuto é Il-Nam ter escolhido entrar no jogo. O expectador virou protagonista, com um pouquinho de Skin in the Game. E ele se divertiu de verdade, porque ele e Gi-hun se tornaram Gganbu. Gi-hun cuidou dele, mesmo não tendo nada a ganhar com isso. E, no final, Gi-hun estava certo e ganhou a aposta. A humanidade ainda tem esperança.



E você, o que leva dessa história?


Espero que essas reflexões ajudem você a apreciar Round 6 em algumas de suas dimensões que vão além do espetáculo visual e visceral. Squid Game me chocou o suficiente para eu precisar colocar essas ideias neste artigo.

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