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Eu, PcD

Atualizado: 25 de set. de 2022


Calebe e Hannah, 2012 (acervo pessoal)

Não nasci PcD, mas sou um sobrevivente desde que nasci. Explico: nasci de uma cesária emergencial, placenta prévia, minha mãe já com a bolsa rompida, sangrando em casa.


Por um milagre amigos conseguiram levá-la ao hospital Matarazzo, na região da Av. Paulista em São Paulo. Para os mais novos: não havia celular nem GPS na época.


Já contei minha luta contra o câncer em outro relato. Venci a guerra, mas tive danos colaterais. Corticoides, quimioterapia e radioterapia deixaram sequelas que só apareceram após terminar o tratamento.


Osteonecrose da cabeça femoral


Tudo começou com uma dorzinha na coxa que não passava. Imaginava ser algo muscular. Tentei creme, massagem, fisioterapia, acupuntura e nada.


Bora visitar Dr. Vicente, meu oncologista:

"Filho, dado o seu histórico, é melhor investigarmos."


Era 2007, fui fazer uma bateria de exames e o diagnóstico foi uma deformação na cabeça do fêmur, devido a uma necrose.


Dr. Vicente me indicou o ortopedista Dr. Olavo Pires de Camargo, natural de Atibaia, cidade que anos depois se tornaria minha morada. Ele é especialista em casos relacionados a câncer e um excelente cirurgião. E tem mãos incrivelmente macias!


Cirurgia de Descompressão


Em 2007, Dr. Olavo e equipe fizeram uma bem-sucedida cirurgia de descompressão no meu fêmur. Acontece que faltavam 2 meses para me casar com a Flávia. Dr. Olavo garantiu que eu conseguiria andar tranquilamente na cerimônia.


Dediquei-me à fisioterapia intensamente, mas não me recuperei tão rápido quanto esperava. Foi difícil, mas consegui andar sem as muletas na igreja. Que vitória!


Na lua-de-mel, não tinha jeito, fui de muleta mesmo, mas pelo menos conheci o Maradona cover!

Calebe, Dieguito e Flávia, 2007

Com o tempo, consegui voltar a andar sem muleta. Mancava de vez em quando, especialmente em dias frios, ou quando estava muito cansado.


Aliás, depois da cirurgia descobri que eu tinha ganhado um novo sensor de temperatura. Ao acordar, o fêmur já me avisava se o dia estava frio ou muuuito frio. Quanto mais frio, maior a dor.


Segue o jogo...

Convivi bem com essas dores e as limitações (não dava para correr, nem pular, nem jogar bola. Não conseguia pedalar, o movimento doía muito, eu tinha que abrir a perna para fazer a rotação.) Mas dava tranquilo para fazer outras atividades sem impacto, trabalhar e tocar a vida.


Tudo ia bem até uma bela noite, num luxuoso escritório na Faria Lima (sim, fui Faria Limer antes desse apelido existir)...


Após encerrar o trabalho às 19h, fui me levantar da mesa e senti uma dor aguda, que nunca tinha sentido antes!


Muita dor! Não conseguia mais me apoiar na perna esquerda!! Sentei de volta e pedi ajuda.


Meu amigo Marco Trajano estava lá perto, me apoiei nele e fomos até a garagem do banco. Ele me levou voando para o pronto socorro. Lá fiquei numa cadeira de rodas e fui fazer exames.


Fizeram um Raio-X e me deram alta. Marco me levou para casa. Lembro que me deram algum remédio fortíssimo, porque eu consegui sair do carro sem dor e caminhei até o elevador tranquilamente. Parecia milagre!



Entrei em contato com Dr. Olavo. Com base no Raio-X e na Ressonância Magnética, o diagnóstico foi de que o efeito da cirurgia de descompressão tinha vencido. Foram cinco anos bem vividos. Agora era necessário colocar a prótese.



Ortoplastia Total do Quadril Esquerdo


Esse é o belo nome da cirurgia que passei. Basicamente trocam a cabeça do fêmur e o acetábulo por um conjunto de articulação artificial. Enfim, fui novamente para a mesa de operações.


Lembro de entrar na sala de cirurgia, ouvir Dr. Olavo e colegas comentando algo trivial e logo depois desmaiei. Acordei sem sentir dor alguma, era o efeito da anestesia kkkk.


Dr. Olavo: "Olha, notei que você tinha uma perna um pouco mais comprida do que a outra e aproveitei a cirurgia para deixá-las iguais."

Obrigado, Dr. Olavo! 2 pelo preço de 1! Acabou o drama de fazer barra das calças e ter que pedir para medir as 2 pernas.


Voltando para casa, o plano de saúde cobria home care, o que foi uma bênção, porque eu não conseguia sair da cama nem tomar banho sozinho. Minha perna esquerda parecia um Frankenstein.


O corte não tinha pontos, tinha grampos de metal. Sim, minha perna foi grampeada diversas vezes (não consigo imaginar a cena) e Dr. Olavo garantiu que não doeria ao tirá-las.


Meus novos amigos: o andador e a cadeira de rodas. Ops, esqueci de mencionar, a Flávia estava grávida de 8 meses. Eu tinha um incentivo importante para me recuperar logo. Queria estar presente no nascimento da Yuri.*



Uma Mudança de Auto-percepção


Mesmo nesses anos todos no mundo corporativo, nunca me vi como PcD. Como a deficiência não era visível, não afetava as atividades exercidas e eu não precisava de adequações no local de trabalho, não via necessidade de falar sobre isso. Na verdade, eu tinha até vergonha de mancar. Não queria que tivessem pena de mim.


Só me interessei sobre o assunto PcD quando me contaram que eu tinha o direito de comprar um carro automático com desconto. Trocar a marcha de carro, pisando no pedal da embreagem, aumenta o desgaste e reduz a vida útil da prótese. Então me inscrevi no processo e tirei a carta em 2014.


Não sei como é viver com uma deficiência de nascença, não sei como são as dificuldades e desafios que outras PcDs passam nos locais de trabalho, nas escolas, no dia-a-dia.


Mas eu sei que uma coisa temos em comum: a força para superarmos as adversidades e nos adaptarmos à dor.


Um presente de Deus foi a amizade com o Filipe Lopes, Project Manager na CI&T. Em 2019 fiz um workshop de Pontos Fortes na Igreja do Nazareno em Jardim Aurélia, Campinas/SP.


Lá conheci Filipe, responsável pelo louvor e pelo audiovisual do evento.


Desde então, tenho mentoreado Filipe para potencializar seus talentos como líder e pude testemunhar como ele cresceu e colheu frutos das escolhas que fez, lapidando seus comportamentos.


Filipe me ensinou muita coisa sobre capacitismo e os desafios das pessoas com deficiência no local de trabalho.


A maior lição que Filipe Lopes me ensinou sobre capacitismo: "Na dúvida, pergunta."


Potencializando Talentos PcD na Vale


Quando Adriana Schneider, CEO da Humanare, me convidou para fazermos um piloto para Potencializar Talentos PcD da Vale, topei na hora. Não sabia nem quanto iria receber, mas sabia que estaria fazendo algo que valeria a pena.


Para a turma piloto, convidei o Filipe para passar uma mensagem de incentivo. Ele o fez de coração, contando como o autoconhecimento o transformou como líder:



Desde o começo do programa Potencializando Talentos PcD até agora, já facilitei hubs e mentorias para mais de 170 participantes e atendi no coaching individual mais de 100 participantes, ajudando-as tanto profissional quanto pessoalmente.


Testemunhei vitórias, dificuldade, sorrisos, choros, desabafos e sonhos. Em nossas sessões não discutimos as deficiências, focamos nas fortalezas individuais, nos abundantes recursos internos que cada pessoa possui para enfrentar seus desafios.


Profissionais com deficiência são pessoas que lutam para ter uma chance de crescer e prosperar e tem limitações, assim como qualquer outro ser humano também tem.


O sucesso do programa Potencializando Talentos não foi fruto de uma ideia genial. Foi fruto de muita interação e busca por darmos o nosso melhor para despertar o melhor dos participantes.


Não posso expressar melhor do que o testemunho de um dos participantes do piloto:

"Essa é a primeira vez que temos um treinamento em que não vieram falar pra gente o que a gente tem que fazer. É a primeira vez que querem nos ouvir."

Isso foi muito impactante para mim, e resume o programa Potencializando Talentos PcD. Um espaço de segurança, acolhimento, escuta e troca. Ninguém melhor do que ninguém. Simplesmente seres humanos tentando viver de forma mais plena.


E foi ouvindo vocês que me fortaleci. Agradeço de coração sua confiança e entrega!


No dia da luta da Pessoa com Deficiência, que alegria ver minhas mentoradas Theiná Borges e Júlia Firmo fazendo bonito no vídeo institucional da Vale:

Agora, sinto que posso e que devo, mesmo que minha deficiência não seja visível, assumir publicamente que sou uma Pessoa com Deficiência.


Não precisamos competir para saber que sofre mais. Precisamos nos apoiar para buscar uma sociedade mais justa e inclusiva, que não ignore nem trate Pessoas com Deficiência como cotas, delegando atividades de baixo valor agregado, muitas vezes acessórias, ou "aquilo que ninguém" quer fazer.


Pessoas com deficiência não se resumem a uma sigla. Nós possuímos ambições, sonhos e frustrações, assim como qualquer ser humano.

Então, não assuma coisas sobre as pessoas com deficiência. Chame para conversar e nos escute. Na dúvida, pergunte. Você vai se surpreender. Podemos fazer muito mais do que você imagina.


E você, colega com deficiência, fica aqui meu convite para você também escrever um artigo com o título "Eu, PcD", como um manifesto positivo, afirmando que você é muito mais do que sua limitação.


Juntos podemos muito mais. E para isso precisamos conversar mais. Bora bater um papo?




 

Sobre o autor:


Calebe Luo (o "Ninja dos Pontos Fortes") é um evangelista ativo e multiplicador da cultura de Pontos Fortes no Brasil desde 2016. Deixou uma carreira bem-sucedida em bancos para seguir seu chamado de desenvolver pessoas, Fundou a Kenshin Coaching e participou da primeira formação Gallup no Brasil.

O aluno tornou-se mestre.

É trainer, mentor e coach de executivos e equipes. Ele é fã Disney, Marvel, mangás e cultura geek, marido da Flávia e pai de 3 crianças talentosas.


 


*Yuri significa lírio em japonês, e é um nome feminino. E sim, consegui testemunhar o nascimento da Yuri, inclusive filmei tudo!


Obs: Esse artigo foi originalmente publicado no LinkedIn.

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