Segundo Aniversário de Infarto



Meu "Novo Normal" começou um pouco mais cedo, lá em 2018. Era uma quinta, 31 de maio, feriado de Corpus Christi. Dia de tempo bom, como o de hoje, com sol forte, mas fresco na sombra. Estávamos em casa. As filhas queriam passear de bicicleta na rua, e lá fomos nós.


A filha do meio queria aprender a andar de bicicleta, mas sabe como é, eu fiquei encarregado de empurrar, puxar, segurar... No final do passeio, ela se cansou, e eu subi a ladeira do quarteirão carregando a bike.


Cheguei na garagem e pendurei as bicicletas. Quando entrei em casa, notei que meu fôlego parecia não voltar. Sentia o contrário de estar ofegante, por mais estranho que pareça. Mas, achei que não fosse nada demais, e sentei no sófá para descansar.


As meninas foram jogar Monopoly comigo e minha esposa. Na minha vez, só tinha vontade de jogar os dados. Elas movimentavam as peças e faziam os negócios.


Uma hora fiquei com vontade de ir ao banheiro. Ao voltar, notei que sentia uma leve tontura, mas não sabia do que se tratava.


Falei pra Flávia, minha esposa:

"Acho que não estou bem. Estou meio zonzo."
Ela olhou pra mim com uma cara preocupada e me disse: "Você está branco!"
"Então vamos para o hospital. Não sei o que é, mas deve ser melhor ver lá."
"Mas como vamos fazer para preparar as crianças e levar no carro?"
"Liga pro Bruno, veja se ele consegue vir me levar e depois você me encontra lá."
Fui subir a escada de casa, mas perdi as forças dos braços. Fiquei quietinho num degrau e comecei a sentir muito frio. "Que estranho, por que está ventando tanto, de repente?" pensei, na total ignorância do que estava acontecendo comigo.

Pedi pra filha do meio buscar o casaco. E lá estava eu, de casaco, na escada, ainda sentindo frio, quando Bruno, um grande amigo, chega rapidamente, eu me apoio nele e conseguimos subir a escada, sair de casa e entrar no carro dele. Tinha a impressão de que eu tinha força nas pernas ainda.


Dentro do carro, sinto cada vez mais frio, apesar de estar suando. Mãos e pés começam a formigar. Orava em pensamento, lembrando-me das promessas de Deus e perguntando se minha hora tinha chegado. Bruno deve ter tido seu momento de Velozes & Furiosos, porque chegou rapidamente ao hospital. Contribuiu o fato de que estávamos no meio da greve dos caminhoneiros (na época isso parou o país), então Atibaia estava vazia.


No hospital, fui levado para o PS e logo atendido. Tinha dificuldade em falar. Só conseguia falar palavras, perdia o fôlego rápido. Quem me conhece sabe como falo rápido, foi um sufoco ter que falar meu nome e meu histórico de saúde (linfoma, cirurgias, etc).


Mas a médica foi bem paciente, ela perguntou:

"Como você se sente?"
"É como se meus pulmões não conseguissem se expandir. Não sinto dor, mas não consigo encher o peito de ar."

Com todos os indícios e medições, fui diagnosticado com infarto. Após receber medicação, senti um certo alívio, tive até a ilusão de que receberia alta e poderia ir pra casa, mas me disseram que eu precisava passar no setor de hemodinâmica. Perguntei do que se tratava e disseram que eu faria um cateterismo.


Após aguardar um tempo, fui transferido para lá. Conseguia ver a parede cheia de instrumentos, pareciam gravatas gigantes penduradas num armário. A assistente pegou uma delas e abriu a embalagem.

"Vou receber anestesia?
"Não, preciso que você fique acordado e converse comigo durante o procedimento. Vou só aplicar um calmante porque você parece estar bem tenso."

E de fato estava. E fiquei mais tranquilo ao saber que ele percebia isso. Senti um pouco a aplicação do cateter, mas nada demais. Já sofri mais com quimioterapia.


O exame demorou mas, num dado momento, senti um alívio instantâneo e o médico me perguntou:


"Como você se sente?"
"Ufa, passou! O que aconteceu?"
"Você tinha um coágulo entupindo uma coronária, que eu dissolvi agora."
"Você colocou stent ou algo assim?"
"O mapeamento mostra que não há condições de colocar um stent, será necessário avaliar qual o melhor procedimento para o seu caso..."

Após cateterismo, fui levado para a UTI, onde me recuperei e e recebi a visita da Flávia e de amigos próximos, um de cada vez. Eu estava bem, já estava animado, lendo e feliz por ter passado pelo susto.


Tem muito mais história depois disso, mas deixarei para uma outra oportunidade. Já escrevi sobre mudanças e escolhas e os aprendizados que tive com minha luta contra o câncer, fica aqui a sugestão de leitura.


Sou grato a Deus por estar aqui hoje e poder compartilhar um pouco desse episódio. Tantas coisas poderiam ter acontecido errado, mas tenho fé de que há um propósito para ter sobrevivido.


Meu "novo normal" já é uma vida mais caseira, respeitando meus limites físicos e sendo intencional em minha missão de ajudar pessoas a trilharem sua jornada de excelência, com sabedoria e virtude, a partir de seus talentos naturais.


Não sabemos o dia de amanhã, que tal vivermos com intensidade e intencionalidade o dia de hoje?


Deus abençoe sua vida!


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